Crítica | Mãe! (2017)

Quando o meio cinéfilo pensava que o Oscar de melhor roteiro original estava garantido para o diretor Jordan Peele pelo seu excelente Get Out, vem Darren Aronofsky e se mostra um adversário a altura. Mãe! pode não ter sido o primeiro filme que busca trabalhar uma determinada alegoria, mas com certeza é um dos mais originais e desafiadores filmes desde Amnésia de 2000.

Enredo: o filme acompanha um casal que mora em uma casa isolada. Ele, um poeta, tenta buscar inspiração para sua nova poesia, enquanto ela se ocupa reformando a casa após um incêndio. Tudo muda quando uma série de visitas começam a chegar na casa, criando um clima de paranóia e presságio para o caos que piora progressivamente.

Essa é a mais nova polêmica cinematográfica do cineasta norte-americano, Darren Aronofsky, que é considerado junto a Christopher Nolan, Danny Boyle, David Fincher e muitos outros, como um dos melhores cineastas do século XXI. Assim como em seus outros filmes, Requiem Para um Sonho, O Lutador, Cisne Negro e Noé, o diretor mexe com as emoções do público através de uma tortura audiovisual que faz do público um bando de masoquistas. O diretor conduz seu filme com uma base simples. A câmera segue a protagonista por com curtos planos sequências rompidos por cortes precisos que ajudam a construir a excelente geografia da casa, mas principalmente, garantir uma experiência de imersão muito forte. Quando não há um plano fechado no rosto, na nuca, nos ombros ou no busto da protagonista, ela se transforma em seus olhos. Isso garante que o público sinta o que ela está sentido e tenha reações próximas às dela ao ver o que ela está vendo. Garantindo uma sensação de pesado desconforto tirando o público de sua posição voyuerista. Nisso ele também faz um bom trabalho de enquadramentos e movimentos em 360° graus. E mesmo com esse foco na personagem central, o diretor Darren Aronofsky não é limitado a mostrar o absurdo incorporado em ações dos personagens secundários. A violência e a paranóia chegam no ponto do inassistível, como um alimento intragável mas que, mesmo assim, você quer engolir.

Mas se engana quem pensa que a direção seja o principal aspecto de Mother!, pois o roteiro aqui é simplesmente impressionante. Mas não por ter reviravoltas impactantes, diálogos carregados de filosofia ou uma estrutura convencional. Basicamente, a narrativa é completamente alegórica seguindo uma ordem de acontecimentos que são claras representações de diversos elementos ligados a religião. Primeiro, a ideia de criação envolvendo Deus com sua necessidade de criar algo para adentrar aquele ambiente moldado e preservado pela mãe natureza. Em determinado momento, entra claramente na estrutura do gêneses seguindo para o surgimento da humanidade e se consolidando com a ideia de que os seres humanos, por terem livre arbítrio no meio, vão se apossando dele, moldando ao seu bel prazer, destruindo se necessário e, é claro, irritando a mãe natureza que reage a ação humana. Nisso também há uma forte atenção em representar a relação das pessoas com Deus, através dos cultos religiosos que evoluem para o completo fanatismo, que também resulta na fragmentação metafórica de Deus. Há diversas outras interpretações mais específicas que só poderiam ser trabalhadas a partir de spoilers. Por último, o final é simplesmente genial, é do tipo que vai gerar debate mas sem uma completa ambiguidade.

Os poucos problemas de Mãe! é que há uma sequência caótica no 15 minutos finais que é um tanto arrastada e um tanto repetitiva e são inseridos pouquíssimos momentos para que o público respire e absorva tudo o que viu. 

No elenco, a Jennifer Lawrence da a melhor interpretação de sua vida. A atriz tem uma fortíssima presença em cena e ela trabalha com maestria a crescente paranoia de sua personagem, chegando ao ápice necessário. O Javier Bardem convence como um homem acolhedor por um lado e ameaçador por outro, mas não pelo que ele pode fazer, mas sim pelo que ele pode deixar acontecer. O Ed Harris da uma performance eficiente em criar desconforto e a Michelle Pfeiffer se impõe com uma presença desconcertante e questionadora. 

Tecnicamente, o filme tem um excelente trabalho de som que é eficiente na hora de substituir uma trilha sonora e trazer um forte grau de realismo ao ambiente, enquanto a cinematografia reforça a sensação de claustrofobia, ao mesmo tempo que cria uma boa divisão entre os momentos mais pacíficos do filme, onde são utilizadas cores mais vivas e agradáveis e os momentos mais viscerais, onde um amarelo bronze paira sobre a casa.

Mãe! é um dos filmes mais desconfortáveis de todos os tempos, mas nunca de uma forma que diminua a credibilidade do roteiro, da direção, das interpretações e aspectos técnicos. É um dos melhores trabalhos de um dos maiores cineastas em atividade. 

Nota: 9,4


Escrita por Gabriel Pinheiro, essa crítica é um oferecimento de Doentes por Cinema.

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Criador e Hoster do DaveCAST, estudante no SENAI, cristão reformado, crítico de trailers, odiador de burocratas e mestre de Role-Playing Jogo nas horas vagas.

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