Crítica | Em Ritmo de Fuga (2017)

Pulp Fiction de 1994, Guardiões da Galáxia de 2014 e agora Baby Driver, são uma prova que, um filme não precisa ser um musical para “ser musical”.

Enredo: O jovem Baby (Ansel Elgort) tem uma mania curiosa: precisa ouvir músicas o tempo todo para silenciar o zumbido que perturba seus ouvidos desde um acidente na infância. Excelente motorista, ele é o piloto de fuga oficial dos assaltos de Doc (Kevin Spacey), mas não vê a hora de deixar o cargo, principalmente depois que se vê apaixonado pela garçonete Debora (Lily James).
(Adorocinema)

A premissa em si não é original, mas tudo que é bem desenvolvido funciona independente de ser original ou não. E esse caso se aplica aqui. 
Baby Driver é certamente um dos filmes mais inspirados e diferentes dos últimos 15 anos. Em termos de estilo visual, tom, estrutura narrativa, pode-se encontrar elementos de diferentes filmes, tais como Cães de Aluguel e Pulp Fiction do Quentin Tarantino, Caminhos Perigosos do Martin Scorsese, Curtindo a Vida Adoidado de John Hughes e um pouco de Laranja Mecânica do Stanley Kubrick (um pouco!).

A direção e o roteiro são do britânico Edgar Wright que dirigiu a trilogia do Cornetto composta pelos filmes Shaun of the Dead, Hot Fuzz e The World’s End além de Scott Pillgrim contra o mundo e a série Spaced. Curiosamente esse é o filme mais diferente de sua carreira, mas não que o diretor tenha sido impedido de aplicar sua autoria, mas sim nota-se uma evolução em suas habilidades. 
Pelo fato do protagonista estar sempre ouvindo música, o diretor optou por criar sequências que, do começo ao fim, tem as músicas que o protagonista escuta no fundo, mas não é só isso, as cenas são dirigidas de uma forma que a movimentação de câmera e principalmente a edição sigam o ritmo dessas músicas. O casamento entre o que se está vendo na tela e o som ao fundo é simplesmente fantástico. Há também muitos sons em cena que, reforçados por uma edição bem pensada, não só seguem o ritmo como também criam uma sonoridade inventiva. As sequências de ação são bastante estilosas mais sem precisar apelar para câmera lenta ou enquadramentos super perfeitos, mas basicamente uma uma dinâmica bem planejada. Não há nenhuma cena que seja decepcionante, inclusive há uma que envolve uma perseguição de carros em um estacionamento que consegue ser melhor do que todos os 8 filmes da franquia Velozes e Furiosos sem apelar para o desrespeito às leis da física. Destaque para o plano sequência bem executado do primeiro ato que é bastante divertido e visualmente interessante. E um momento onde o protagonista foge à pé da polícia que é toda feita com cortes rápidos mas que não levam o filme a bagunça visual. Se Edgar Wright for indicado ao Oscar de melhor diretor, seria bastante justo.

O roteiro funciona perfeitamente no primeiro e no segundo ato em estabelecer protagonista, foco de trama e desenvolvimento de personagens centrais. Pode-se argumentar que não há muito desse desenvolvimento a certos personagens secundários, mas isso impede que a trama perca fluidez. Esse é um filme que consegue se manter imprevisível pelas diferentes direções que a narrativa pega e mesmo assim não deixa de ser um filme objetivo. Os diálogos podem não chegar ao nível dos de Pulp Fiction mas são bons o suficiente para conseguir interesse momentâneo do público e alguns elementos como o romance do protagonista e sua vida de criminoso são muito bem trabalhados sem recorrer a clichês. O único problema do filme é o ato final que flerta um tanto com o moralismo. Mesmo que a construção do personagem tenha tendido para esse fim, ele não combina com o estilo do filme. Destaque para o humor do filme que é trabalhado na medida e funciona por completo.

No elenco temos Ansel Elgort que faz um bom trabalho em representar a interessante relação do protagonista com música, suas inseguranças, etc. A Lilly James tem uma presença que adiciona uma leveza cativante ao filme. O Kevin Spacey traz um tom de humor negro sofisticado que garante os melhores momentos onde há humor. O Jon Hamm, a Eiza González e o Jamie Foxx trazem uma energia eletrizante que, em seus melhores momentos, lembram bons filmes de ação dos anos 1980 e 1990, o mesmo podendo dizer da pequena participação do Jon Bernthal. 

O filme é também um espetáculo em aspectos técnicos. A trilha sonora faz um bom trabalho em migrar a música que o protagonista está ouvindo do estado de som ambiente para som de fundo. O design de produção e os figurinos tem um bom uso de cores vibrantes em luzes, tudo reforçado por uma cinematografia com tons saturados. 

Baby Driver é um dos melhores filmes do ano. Tem um trabalho de direção espetacular, boas interpretações, ótimos aspectos técnicos e um roteiro eficiente com exceção do ato final que, se fosse diferente, faria desse filme uma obra perfeita.


Escrita por Gabriel Pinheiro, essa crítica é um oferecimento de Doentes por Cinema.

Ouça nosso podcast sobre o filme do Baby Driver.


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