Eu escuto 35 horas de podcasts toda semana. Isso é ruim?

Algumas semanas atrás, eu peguei o ônibus e, antes mesmo de me sentar, comecei a revirar minha mochila para achar meus fones de ouvido. Depois de esparramar tudo da minha mochila de um modo insano, percebi: devo parar de procurar loucamente! Eu tinha uma viagem de ônibus de 50 minutos pela frente, sem contar uma caminhada de 20 minutos para casa, e não conseguia lembrar da última vez que passei tanto tempo sem ouvir nada, sem a galera dos meus podcasts favoritos para me divertir. Eu considerava seriamente pegar um Uber, apenas para evitar estar sozinho com meus pensamentos.

Comecei a ouvir os podcasts há cerca de quatro anos e, desde então, eles se tornaram parte da minha rotina diária. Eu escuto quando estou viajando, escrevendo, cozinhando, limpando e, às vezes, enquanto tomo banho. As únicas vezes que eu me resigno ao silêncio são quando estou escrevendo. É um esforço consciente para tirar o máximo proveito de todas as oportunidades disponíveis para colocar mais informações no meu cérebro, e eu sou grato por isso; Aprendi muito ao longo dos anos graças à minha obsessão “podcastal. No entanto, algo no meu pânico em estar em silêncio com minha mente me deixou desconcertado. Era como se eu não soubesse como existir sozinho no mundo, sem um estranho falando em meus ouvidos em todos os momentos.

Os podcasts aumentaram em popularidade a uma taxa extraordinária desde o sucesso do  podcast americano Serial em 2014. A pesquisa no ano passado mostrou que mais de um terço de todos os americanos ouviram alguma vez podcasts, e daqueles que ouviram semanalmente, 36 por cento os escutaram entre três e dez horas por semana, com mais 12 por cento ouvindo dez horas ou mais. Eu provavelmente ouço cerca de cinco horas por dia, o que significa que eu estou consumindo impressionantes 35 horas de conteúdo de áudio por semana. Ouvir podcasts é basicamente meu segundo emprego. Claro, não é como se eu parasse de assistir televisão, filmes ou YouTube. Eu ainda leio livros e leio artigos online durante todo o dia e continuo a gastar mais tempo do que provavelmente é aconselhável em mídias sociais.

Em outras palavras, os podcasts não tomaram o lugar de outros hábitos da galera que tem “internê”. Na verdade, eles enchem o espaço no meio, aquele momentos que costumavamos a  ouvir música, ou mesmo simplesmente não ouvirmos nada. Muitos momentos alegres na minha vida vem com uma terceira roda: um podcaster no fundo, zoando a nossa política ou conversando sobre algum fato histórico obscuro.

Ultimamente, acho que estou começando a perder a paz e a tranquilidade. Comecei a me perguntar: o que meu hábito de ouvir podcasts está fazendo no meu cérebro? E é mesmo possível memorizar 35 horas de fatos divertidos e curiosos por semana?

Era como se eu não soubesse como existir no mundo sozinho, sem um estranho falando em meus ouvidos toda hora. A pesquisa sugeriu, afinal, que o silêncio é benéfico para o desenvolvimento de células no hipocampo, a região do cérebro central para a memória, emoções e sistema nervoso. Embora esses estudos não examinem especificamente a diferença entre ruído branco, música e conteúdo falado, encher nossas mentes com informações em formato de áudio pode ser tão problemático quanto gastar todas as horas da madrugada consumindo qualquer outro tipo de mídia.

Porque, apesar de sentir que estou aproveitando ao máximo o meu tempo limpando a casa ou viajando, é possível que eu esteja fazendo meu cérebro um desserviço ao permitir-lhe tão pouco tempo livre, explica Michael Grabowski, professor de comunicação no Manhattan College, em Nova York, especialista em neurociências e no cérebro humano. “Consumir informação é apenas o começo – nossas mentes precisam de tempo para absorver e sintetizar essa informação, para examiná-la criticamente”, ele diz. “Isso é algo que fazemos em silêncio, desativando-se ativamente da tecnologia digital e focando o mundo físico que nos rodeia”.

Enquanto a maioria de nós entende que gastar horas de nosso tempo assistindo TV ou completar testes de BuzzFeed provavelmente não está fazendo coisas boas para nossa mente, os podcasts são percebidos como uma forma mais intelectual – quase gourmetizada – de entretenimento. Kara Silverman, uma blogueira de 34 anos de idade,  fanática por podcasts, disse em suas redes sociais que ela escuta podcasts sempre que seu cérebro não está concentrado no trabalho ou nas pessoas. “Para mim, assistir  TV ou YouTube é equivalente a comer Mcdonald’s. Apenas um entretenimento insensato para desligar meu cérebro”, disse ela. “Os podcasts são uma maneira de me educar, um uso positivo do meu tempo, então eu realmente não penso na possibilidade de passar muita tempo sem escutar”.

E há alguma verdade sobre essa suposição que Silverman e eu temos em comum. Os podcasts geralmente não são focados em ficção, e sim em “conteúdos educacionais”. Enquanto escrevo isso, o podcast número 1 no iTunes é o Nerdcast de Star Wars VIII. Os dez melhores incluem o podcast Mamilos, que trata de temas polêmicos, ResumoCast e Erico Rocha, sobre empreendedorismo, ensaios filosóficos com Mario Sérgio Cortella e outros podcast que você provavelmente deve conhecer.

Da mesma forma, também parece ser verdade que este tipo de mídia está realmente envolvendo nossos cérebros. No ano passado, no primeiro episódio do podcast gringo Freakonomics, Jack Gallant, um neurocientista da UC Berkeley, explica um estudo em que ele estava envolvido, onde os sujeitos foram submetidos a uma ressonância magnética e reproduziram episódios de The Moth Radio Hour, enquanto os cientistas observaram os efeitos no cérebro. Eles descobriram que, ao ouvir o conteúdo de áudio, o cérebro estava trabalhando muito mais do que os cientistas achavam anteriormente. Não é claro, como Gallant explicou durante esse episódio, se essa atividade aumentada é necessariamente boa para o seu cérebro. Mas o que parece claro é que a razão pela qual os podcasts excitam nossos cérebros é provavelmente a mesma razão pela qual eles se tornaram populares em primeiro lugar: as histórias.

“Um dos problemas que você tem em experiências de ressonância magnética é que é muito chato”, disse Gallant em Freakonomics. “Se você colocar alguém em um scanner de ressonância magnética, que é um lugar muito desconfortável para se estar, e então você pisca uma palavra a eles a cada cinco segundos por uma hora, eles ficam entediados mentalmente”. As histórias da Moth, ao contrário, são muito mais envolventes. “Você se perde nas histórias”, disse ele. E quando você ouve um podcast, não é apenas a parte do seu cérebro que processa o som e o idioma envolvidos. Se você está ouvindo uma história que envolve, por exemplo, uma série de quatro cães latindo, um dos quais cheira muito mal, a parte do cérebro que está ligada ao seu sentido do cheiro, bem como a parte associada com números e matemática, serão acionados. Ouvir podcasts, em outras palavras, não é uma atividade passiva.

“Eles fazem seu cérebro zumbir”, disse Gallant à Freakonomics. “Se esse zumbido é um tipo misterioso e delicioso depende se você quer que seu cérebro fique ou não. Se você estava planejando dormir, isso pode não ser tão bom. “Nossos cérebros precisam trabalhar muito para pegar apenas uma entrada de áudio e transformar isso em toda uma experiência sensorial. É por isso que os podcasts podem ser tão absorventes.

É também por que eles podem ser cansativos: eles mantêm meu cérebro em um estado de maior concentração. Antes de descobrir os podcasts, passei a maior parte do meu tempo sozinho, ouvindo música, o que levaria a minha mente a andar alegremente. Com podcasts, por outro lado, sinto que estou em constante concentração. Embora não exista uma pesquisa específica sobre as distinções neurológicas entre ouvir música e ouvir conversar, na minha experiência, o último é muito mais provável que seja de consumo total. Quando eu estou ouvindo um podcast, estou concentrado apenas no que estou ouvindo, em vez de usá-lo como um ponto de partida para sonhar acordado ou refletir sobre novas idéias.

Além disso, a pesquisa de Gallant também sugere que minhas boas intenções em ouvir podcast podem estar saindo pela culatra; Toda a atividade torna-se menos informativa se eu nunca reservar um momento para deixar as informações entrarem. “Precisamos ser capazes de deixar a mente vagar sem consumir conteúdo para poder absorver os dados, transformá-lo em informação, então conhecimento e, finalmente, sabedoria”, explicou Grabowski. “Cada etapa desse processo requer tempo para acontecer”.

Então, talvez minha obsessão em podcasts não esteja me deixando tão sábio quanto eu sinto quando termino um episódio. Mas os benefícios ainda superam os negativos, disse o Dr. Steve Schlozman, um psiquiatra praticante e um professor assistente de psiquiatria na Harvard Medical School. “Algumas pessoas fazem melhor proveito de estímulos sonoros constantes, enquanto para outras pessoas pode ser um obstáculo cognitivo”, diz Schlozman. “Mas também há um benefício social muito importante: quando se trata de podcasts extremamente populares como Nerdcast e Não Ouvo, o “efeito watercooler “entra em jogo. “Estamos ouvindo tantas dessas coisas por influência de nossos círculos sociais, que é possível – embora eu não esteja tomando um tempo ideal para processar as informações sozinho – que por meio de discussões com outras pessoas, ou mesmo lendo artigos e tweets sobre o episódio, meu cérebro está encontrando uma maneira de captar a informação do modo mais ideal.

Mesmo, Schlozman encorajou a todos que gostam da mídia a encontrar um pouco mais de equilíbrio no meu dia-a-dia. “A ideia de atenção plena “tornou-se extremamente popular, e há validade”, disse ele. “Podemos ver benefícios fisiológicos, como diminuição da depressão e ansiedade, mas claro, não pode ser simplificado a isso.” Todos nós precisamos de tempo para obter nossos pensamentos, explica Schlozman, mas não necessariamente precisa ser uma hora de meditação intensa todos os dias. Basta sentar-se silenciosamente durante dez minutos saboreando uma xícara de café. De preferência, sem o acompanhamento da voz deliciosa do Douglas Domiciliano Ganso.


O texto original está hospedado no site americano, The Cut, traduzido e adaptado a realidade da podosfera brasileira de acordo com os gostos e percepções do podcaster e blogueiro, João Redmann.


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