Crítica | Três Anúncios Para Um Crime (2018)

Três anúncios simples. Com perguntas profundas num lugar antes abandonado. Numa rua aonde só vai “quem estiver perdido ou for muito idiota”. A protagonista do filme teve sua filha tirada de si, “estuprada enquanto morria” como diz um dos outdoors . “Como pode, xerife Willougby?”; “ainda sem pistas?”. Perguntas que vão além das letras garrafais em preto que contrastam no vermelho sangue. Perguntas que escondem a culpa de uma mãe que não tratou sua filha do jeito certo, que da boca pra fora desejou seu estupro. Três Anúncios Para Um Crime é muito mais do que um filme sobre três outdoors que viram de cabeça para baixo a pequena cidade de Ebbing, é um grito de guerra de uma pessoa que transformou sua dor em raiva, e quis externar isso para um mundo.

 

 

 

 

 

 

O filme conta a história de uma mãe inconformada com a ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha, Mildred Hayes (Frances McDormand) decide chamar atenção para o caso não solucionado alugando três outdoors em uma estrada raramente usada. A inesperada atitude repercute em toda a cidade e suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e o Delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação.

Esse é um daqueles filmes que não da pra definir com um gênero só: Drama, comédia, policial… Não sei! Só sei que ele me arrebatou de um jeito que nenhum outro filme de 2018 – até o momento – fez, sem seguir uma narrativa convencional, o roteiro é genial ao fazer você se colocar na posição de vários personagens e não conseguir defender nenhum deles totalmente. Apesar de você sentir pena da Mildred em nenhum momento você consegue não se colocar no lugar de Willoughby, que mesmo não tendo tido exido em descobrir o assassino e estuprador da garota, está a beira da morte e tendo que lidar com uma vergonha pública daquele nível. O que dizer então do Oficial Dixon? Misógino, racista, nojento e, principalmente, incontrito de seus pecados. O ápice do nosso ódio ao personagem é quando ele espanca e joga o pobre e indefeso publicitário Red Welby de seu escritório, comportamento comum na cidade, principalmente com negros. Mas o inesperado acontece, ele se torna não só alguém digno de compaixão, mas comparsa de vingança de Mildred. O que fez essa mudança acontecer? Devemos perceber que toda aquela violência é uma capa para sua fragilidade, uma capa para seu medo de sofrer e de mostrar que também sofre. Ele é uma vítima do sistema, de seu seio familiar, de tudo. Um personagem com várias facetas que ganha vida na belíssima atuação de Sam Rockwell.
 
Woody Harrelson and Sam Rockwell in the film THREE BILLBOARDS OUTSIDE EBBING, MISSOURI.
Photo courtesy of Fox Searchlight Pictures. © 2017 Twentieth Century Fox Film Corporation All Rights Reserved

Infelizmente o que acaba juntando os dois personagens são a perda do Xerife Willoughby. A tristeza e amargura dos dois é o que faz esse elo ser tão estranho e emocionante ao mesmo tempo. Além da vingança, o que existe na cabeça desses dois lunáticos é a dúvida, esse sentimento dúbio que nos leva ao clímax da obra, com um final surpreendentemente humano, inesperado e ideal.

 
Preciso comentar dos aspectos técnicos? Apesar de seu curriculum pequeno, Martin McDonagh já se provou um bom cineasta e tem aqui seu melhor filme. Fotografia belíssima que engrandece as sutilezas de cada personagem. E não se pode esquecer a trilha sonora, com músicas country e clássicas, é a minha trilha sonora favorita de todos os indicados ao Oscar desse ano (2018).  ‘Três Anúncios’ é uma história sobre perda, dor, ódio, preconceito, vingança e muito mais. Obrigado, Martin McDonagh, Obrigado.

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